GUERRA PRESSIONA FRETE MARÍTIMO E AFETA COMÉRCIO

Publicado em: | Categoria: Notícia de Comércio Exterior

Guerra pressiona frete marítimo e afeta comércio

Preço na rota Ásia-Brasil deve seguir pressionado com tensão global e temporada de pico

Por Vitória Nascimento e Taís Hirata — De São Paulo

 

O preço dos fretes marítimos no Brasil disparou nas últimas semanas e, com a nova escalada de tensão no Oriente Médio, deverá seguir pressionado. A alta de custos ocorre justamente no momento em que varejistas e indústrias formam seus estoques para Black Friday e Natal, o que poderá impactar os preços.

Na rota de importações da Ásia, a principal para o Brasil, o frete de um contêiner de 40 pés, que em janeiro custava cerca de US$ 1.500, chegou a atingir entre US$ 7 mil e US$ 8 mil em junho, alta próxima de 400% em relação ao início do ano, segundo a consultoria Solve Shipping.

Em julho, os valores recuaram para a faixa de US$ 5 mil a US$ 6 mil, mas, diante da instabilidade global, a expectativa do mercado é que os preços sigam nesse patamar ou até mesmo voltem a subir nas próximas semanas, segundo atores do mercado.

Em meio ao cenário global turbulento, a alta dos fretes tem ocorrido em todo o mundo. O World Container Index (WCI), da Drewry, que é referência para fretes no mercado de curto prazo, atingiu o maior patamar dos últimos 12 meses no começo de julho, embora nas últimas duas semanas tenha recuado - para um valor de US$ 4.374 por contêiner de 40 pés. Em seu relatório da última semana, a Drewry destacou os conflitos geopolíticos e as novas tarifas dos EUA como fatores que poderão impactar o comércio global no curto prazo.

A escalada recente do frete resultou da soma de cinco fatores, segundo Leandro Barreto, sócio da consultoria Solve Shipping. O primeiro foi o custo do combustível dos navios, que responde por até 40% do custo da viagem e disparou em razão do conflito no Oriente Médio. O segundo é sazonal. Entre junho e outubro, a rota da Ásia entra tradicionalmente em período de maior demanda mundial, com empresas formando estoque para datas como Black Friday e Natal.

O terceiro fator foi a recomposição de estoques: parte das empresas brasileiras apostou que a guerra duraria poucas semanas e adiou suas importações - a reposição, feita às pressas, coincidiu com o início da alta temporada. No mercado, a percepção é que isso explica a relativa demora para que o impacto da guerra, iniciada em março, chegasse nos fretes da rota Ásia-Brasil. Em abril, o valor ainda orbitava a casa dos US$ 2 mil por contêiner.

O quarto motivo foi uma corrida de montadoras chinesas de veículos elétricos para embarcar carros para o Brasil antes da mudança na alíquota de importação, em vigor desde 1º de julho, o que ocupou parte relevante da capacidade dos navios. Por fim, uma manutenção programada no Canal do Panamá reduziu temporariamente o número de embarcações em trânsito.

Para os próximos meses, a avaliação de Barreto é de que os fretes deverão começar a recuar em agosto ou setembro, com a velocidade da queda atrelada à força da demanda dos pedidos.

Ele pondera, no entanto, que a formação de El Niño, que já pressionou o Canal do Panamá em 2023, pode voltar a afetar a capacidade da rota e que qualquer previsão de queda dos preços de frete está condicionada à imprevisibilidade do mercado.

Já outros atores do setor preveem um aumento de valores nas próximas semanas. “A capacidade do mercado aumentou em julho [com as empresas de navegação enviando navios extras], foi isso que resfriou o valor dos fretes. Para agosto, estamos vendo ‘blank sailings’ [cancelamento de viagens], o que pode fazer com que o preço volte a subir”, disse Rafael, diretor da empresa de logística Asia Shipping. Ele também cita o receio em torno da seca no Canal do Panamá, que no último El Niño provocou cortes no fluxo da rota.

Há alguns dias, a expectativa era de queda de preços, mas hoje o cenário mudou e pode haver altas, na visão de Gabriel Carvalho, diretor-executivo da Scan Global Logistics na América Latina. “Em julho [quando os preços caíram], muitos navios extras saíram da China, o que não vai se repetir em agosto. Pelo contrário, vai haver omissões”, disse, destacando que o recente agravamento da guerra gerou ainda mais incerteza.

Apesar da forte preocupação em torno das tensões no Oriente Médio, Barreto avalia que o novo fechamento do Mar Vermelho pelos houthis não deverá ter um impacto direto tão significativo para o comércio de contêineres, porque as empresas de navegação ainda não haviam retomado o uso da rota de forma regular.

Os armadores interromperam a passagem pela região no fim de 2023, quando o grupo rebelde do Iêmen começou seus ataques, impedindo a passagem de navios de grande porte. Algumas companhias de navegação vinham retomando viagens, mas ainda de forma pontual. Por outro lado, Barreto destaca que há um efeito indireto, dado que o fechamento do mar Vermelho prejudica a movimentação dos navios petroleiros, o que afeta todo mercado de navegação devido à disparada de combustíveis.

Outro temor do mercado é de escassez de contêineres. Segundo Barreto, hoje o mercado começa a ver uma demora da reposição de contêineres refrigerados, dado que uma parte deles está “presa”, com logística dificultada, no Oriente Médio. Porém, empresas de logística avaliam que neste momento essa questão não tem sido um problema no mercado.


Fonte: Portal Valor Econômico