IMPACTO MACRO DO TARIFAÇO É LIMITADO, MAS REAÇÃO EXIGE CAUTELA, DIZEM ECONOMISTAS
Publicado em: | Categoria: Notícia de Comércio ExteriorImpacto macro do tarifaço é limitado, mas reação exige cautela, dizem economistas
Setores estão mais preparados para se adaptar a tarifas do que no passado
Por Anaïs Fernandes, Debora Leite, Grace Vasconcelos, Kariny Leal, Marcelo Osakabe, Rafael Vazquez e Vinícius Lucena — De São Paulo e do Rio
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Livio Ribeiro: “Roteiro” foi o mesmo de tarifas americanas do ano passado, mas “tom” é diferente diante de cenários políticos no Brasil e nos EUA — Foto: Leo Pinheiro/Valor
As novas tarifas de 25% dos Estados Unidos não devem trazer impactos econômicos agregados expressivos ao Brasil, mas têm efeitos setoriais relevantes, o que vai exigir adaptação das empresas, apontam especialistas. Além disso, dizem, é importante que o Brasil adote cautela na reação, principalmente considerando os contornos políticos que o tema adquiriu.
O “roteiro” da mais recente taxação foi muito similar ao do ano passado, lembra Livio Ribeiro, sócio da BRCG e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre). “É uma tarifa cheia grande, com uma quantidade absurda de exceções”, afirma.
Especialistas destacam que a lista de isenções à sobretaxa cresceu, com destaque para a inclusão do ferro-gusa e do café solúvel. “A tarifa inteira impacta um subconjunto muito pequeno de produtos exportados”, diz Ribeiro.
Por isso, afirma, o reflexo macroeconômico tende a ser perto de zero, ainda que alguns efeitos setoriais sejam importantes, por exemplo, para as indústrias de calçados, mobiliário e de armas e munições.
O Daycoval calcula que a nova taxa resultará em uma perda de receita de exportação de US$ 0,7 bilhão e em um choque “irrisório” de 0,03 ponto porcentual (p.p.).
Além disso, apesar das novas tarifas, a alíquota efetiva americana ao Brasil deve ficar menor do que se estimava até então, segundo Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para a América Latina do Goldman Sachs.
As novas isenções, nota, abrangem um valor adicional de US$ 2,1 bilhões nas importações dos EUA provenientes do Brasil, fazendo com que a tarifa de 25% incida sobre 26% das importações brasileiras (US$ 10,2 bilhões), ante 31% (US$ 12,3 bilhões) previstos no relatório preliminar do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) de junho.
Isso, diz Ramos, equivale a uma queda de 1,3 p.p. na alíquota tarifária americana efetiva estimada para o Brasil, para 16,8%, de 18,1% calculados anteriormente. Ainda assim, a tarifa efetiva dos americanos ao Brasil está bem acima da tarifa média aplicada aos principais vendedores da América Latina, de 7,3%, segundo o Goldman Sachs.
“O Brasil é o que mais perdeu”, afirma José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). A nova ofensiva americana, diz, se soma ao custo elevado que empresas já enfrentam no Brasil, principalmente pelos juros elevados.
Abrão Neto, presidente da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), ressalta que o tarifaço prejudica também as importações. “Toda a cadeia de comércio sofre. Cerca de um terço do comércio bilateral entre os países acontece entre empresas do mesmo setor ou entre matrizes e filiais”, afirma.
Por outro lado, setores afetados pelo novo tarifaço também estão mais preparados agora, diz Welber Barral, sócio do Barral Parente Pinheiro Advogados e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil. “O prazo é apertado, mas as empresas já esperavam”, afirma. A tarifa de 25% entrará em vigor em 22 de julho.
Os produtos que serão redirecionados para outros mercados são principalmente commodities, segundo Barral. “Papel e etanol têm certo redirecionamento. Já produtos manufaturados demoram mais e precisam de adaptação para acessar outros mercados.”
Medidas como tarifas recíprocas podem ter efeito contrário e degradar ainda mais as relações"
— Abrão Neto
O caso de máquinas e equipamentos preocupa também por seu alto valor agregado e pelos efeitos sobre outras cadeias industriais, diz Stéfano Pacini, do FGV Ibre.
“A decisão do tarifaço mostra como é essencial a estratégia já em curso de diversificação de mercados”, afirma Rodrigo Soares, presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Segundo a entidade, o impacto nesse segmento não é imediato, mas pode atingir indiretamente negócios que fornecem insumos ou produtos para grandes companhias exportadoras.
Apesar do “roteiro” semelhante, o “tom” da taxação atual é diferente do ano passado, observa Ribeiro, da BRCG. “Agora, ela se enquadra em uma eleição, tanto aqui quanto lá”, diz, em referência à corrida presidencial no Brasil em outubro e às votações para o Congresso americano em novembro.
Na avaliação de Castro, da AEB, o assunto tomou um caráter majoritariamente político, e tanto Brasil quanto EUA têm “ultrapassado os limites de um bom relacionamento comercial”. “Tanto Trump, quanto Lula, estavam com os pés trocados. Aí, não adianta buscar culpados”, afirma.
Para Barral, que participou das audiências públicas no USTR, as negociações entre Brasil e EUA pouco ajudaram a mudar o resultado final do processo. “Não dá pra dizer que houve grandes negociações. Basicamente, seguiram na linha do primeiro relatório do USTR. O que houve de mitigação foi a inclusão de alguns produtos importantes [nas exceções]”, diz.
Nos cálculos da Amcham, as tarifas adicionais de 25% afetam cerca de 3 mil itens exportados do Brasil aos EUA. Em relação à lista inicialmente proposta pelo USTR, houve redução de 426 linhas, levando a isenção de 50,7% para 56,4% da pauta exportadora. Para Abrão, a mudança é indício de que as negociações surtiram algum efeito. “Todos acompanharam a intensificação das negociações a partir de maio, quando os presidentes se encontraram. Mas as reuniões não foram suficientes para chegar a um acordo”, lamenta.
Embora reconheça não ser a prática do USTR, a Amcham defende a criação de mecanismos para ampliar isenções a itens cuja sobretaxa provoque efeitos econômicos desproporcionais.
Novas rodadas de afrouxamento, no entanto, se tornam mais difíceis agora, diz José Ronaldo Souza Junior, CEO da Quantivis Analytics. “Houve todo um processo, com estudo, negociação, espaço para lobbies e consulta pública. É algo que vai se consolidando”, afirma.
Para Abrão, apesar da decisão final, o comunicado do USTR deixou portas abertas para negociação e é preciso manter esses canais. Por outro lado, medidas retaliatórias como tarifas recíprocas podem ter efeito contrário e degradar ainda mais as relações bilaterais, diz, citando casos desencorajadores envolvendo China e Canadá.
A diretora-executiva da Câmara Internacional de Comércio (ICC) no Brasil, Gabriella Dorlhiac, também pede que o Brasil tenha cautela na reação para não prejudicar ainda mais o setor privado. “Qualquer reciprocidade que gere mais tarifas ou acabe com regimes preferenciais terá impacto negativo”, afirma.
O presidente do conselho curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), José Pio Borges, também defende que o Brasil adote postura cautelosa, mas diz que a Lei da Reciprocidade pode ser utilizada de forma “inteligente”, não como uma retaliação generalizada. “Não pode levar para o lado pessoal”, afirma.
Uma eventual resposta do Brasil, diz, deve ser direcionada a setores com influência política sobre o Congresso americano, como açúcar e milho, aumentando a pressão interna sobre o governo de Donald Trump.
Dorlhiac, da ICC, lamenta o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC), promovido pelo presidente dos EUA, e diz que o melhor caminho seria os países atingidos pelas tarifas americanas se unirem para recriar o sistema multilateral de comércio ou, ao menos, um sistema plurilateral, no qual nações dispostas a negociar sob regras claras pudessem se fortalecer.
Fonte: Portal Valor Econômico