PUXADO POR COMMODITIES, BRASIL PODE BATER RECORDE DE CORRENTE COMERCIAL EM 2026

Publicado em: | Categoria: Notícia de Comércio Exterior

Puxado por commodities, Brasil pode bater recorde de corrente comercial em 2026

Exportações devem atingir US$ 394,4 bilhões em 2026 e as importações são estimadas em US$ 304,4 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior, vinculada ao Mdic

Por Vinícius Lucena e Giordanna Neves, Valor — São Paulo

As novas projeções do governo para a balança comercial brasileira, se forem confirmadas, apontam que o Brasil deve bater recorde de sua corrente de comércio em 2026. A última marca foi estabelecida no ano passado, em US$ 628 bilhões, considerando a soma das exportações e importações de 2025.

“Até agora, o destaque desse ano é que tudo indica um recorde da corrente do comércio. E essa é a projeção do próprio governo”, afirma José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços  (Mdic), as exportações devem atingir US$ 394,4 bilhões em 2026, ante US$ 364,2 bilhões na primeira previsão. Já as importações são estimadas agora em US$ 304,4 bilhões, frente a primeira previsão da Secex de US$ 292,1 bilhões.

Estes volumes gerariam uma corrente de comércio de US$ 758,6 bilhões, um aumento de 20,7% em relação a 2025. “Só nas exportações, houve um aumento de US$ 30 bilhões nas projeções. Tudo em função das commodities”, avalia Castro. "Na importação que não está havendo um grande crescimento, porque no mercado interno a gente tem precisado importar menos” , pondera.

O especialista em comércio exterior destaca o aumento das exportações de petróleo (79%), soja (17%) e carnes (62%) e enfatiza que as exportações brasileiras seguem impulsionadas sobretudo por commodities, com menos participação de produtos manufaturados. A expectativa para o ano agora é de superávit em US$ 90 bilhões. Na primeira previsão divulgada, o saldo estimado era de US$ 72,1 bilhões para este ano.

O economista do Banco Inter, André Valério, ressalta que a projeção não é tão fácil de ser atingida, principalmente frente à queda do preço do petróleo frente ao acordo entre Irã e Estados Unidos. O choque nos preços do óleo tinha influenciado positivamente a balança comercial até o momento. “A projeção do Mdic está mais otimista que a nossa. Temos US$ 82 bilhões de superávit até o fim de 2026, mas nossas projeções têm sido revisadas para cima desde o início do ano”.

“Em janeiro, tínhamos US$ 70 bilhões para o fim do ano. Mas, dada a normalização do petróleo, achamos que chegar a US$ 90 bilhões pode ser mais difícil. A gente espera que o ritmo de exportação de petróleo normalize, tanto pela queda na cotação do petróleo, quanto pela ausência de demanda”, afirma.

Valério ainda avalia que o efeito líquido do El Niño na balança comercial ainda é incerto. “Por um lado, podemos ter quebra de safra, principalmente em milho e soja, mas as perdas podem ser compensadas, pelo menos parcialmente, pelo aumento dos preços”, explica.

Ainda sobre o petróleo, Valério avalia que o movimento de alta deve começar a arrefecer à medida que os acordos pelo fim do confronto entre Estados Unidos e Irã avançam. No mês, as exportações aumentaram 79% em petróleo, após queda registrada em maio.

“Com o fim do conflito no Irã e reabertura do Estreito de Ormuz, temos observado normalização na oferta global de petróleo, o que pressionou negativamente os preços, ao passo em que não estamos vendo uma grande demanda por petróleo. Portanto, podemos ver as exportações de petróleo perderem força nas próximas leituras”, afirma em comunicado.

Entre os destaques, também estão as altas de 17% em soja, 20% em minério de ferro, 62% em carnes e 208% em animais vivos, produtos que têm apresentado desempenho forte em 2026, na visão de Valério.

“As exportações de animais vivos foram oriundas da corrida dos pecuaristas para não perderem o momento de alta demanda chinesa, tendo em vista o fim da cota da china que limita as exportações para o país asiático em 1,1 milhão de toneladas sem incidência tributária. Nas próximas leituras, como em julho, a tendência é que o ritmo se arrefeça com um nível menor de abates”, avalia o economista.

No lado das importações, o economista destaca as altas de 223% em fertilizantes brutos (exceto adubos), de 41% em petróleo e de 67% em veículos. Em sua análise, Valério afirma que a alta nas importações de fertilizantes reflete a queda de mais de 8% nos preços internacionais, o que “abriu uma janela para os agricultores que se preparam para o próximo ciclo de plantação e colheita”.

A alta de veículos, por sua vez, reflete o padrão observado desde março, de forte importação de elétricos chineses, aproveitando a tarifa de importação menor. A tarifa foi equiparada à do restante dos veículos no fim de junho, o que, segundo Valério, gerou um “movimento de antecipação de importações”.

“Esperamos alguma normalização nas importações de veículos, ao passo que devemos observar algum aumento na importação de peças, tendo em vista que o governo manteve o benefício tributário para as montadoras de veículos no esquema SKD e CKD até o fim de 2026”, diz.

 — Foto: Divulgação/Porto de Santos

— Foto: Divulgação/Porto de Santos


Fonte: Portal Valor Econômico