GUERRA PRESSIONA FRETES DE EXPORTAÇÃO NO BRASIL
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Na rota para Mediterrâneo-Oriente Médio, transporte de contêineres subiu 67% em abril
Por Taís Hirata — De São Paulo
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Os fretes marítimos de exportação tiveram um salto no Brasil em abril, em meio à incerteza quanto ao futuro da guerra no Irã. Segundo dados da Solve Shipping, o preço subiu 67% entre março e abril, na exportação de contêineres do Brasil para o Mediterrâneo, que serve de rota ao Oriente Médio.
Outros trajetos de exportação também sofreram alta. Na rota para a Costa Leste dos EUA, assim como para o Norte da Europa, houve um aumento mensal de 80% nos fretes. Para o Golfo do México, o salto chegou a 89%, apontam indicadores da consultoria.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o frete de contêineres refrigerados mais do que dobrou na rota do Estreito de Ormuz - de US$ 3.000 para US$ 7.000, desde o início da guerra. O Oriente Médio representa 15% das exportações do setor.
Mesmo com esse aumento, os preços continuam abaixo do patamar médio observado em abril do ano passado, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou tarifas a diversos países, no chamado “Dia da Libertação”, que gerou uma corrida no comércio global antes que as taxas fossem implementadas. Na rota do Brasil para o Mediterrâneo-Oriente Médio, o valor atual está cerca de 17% abaixo do mesmo período de 2025.
Os fretes, portanto, não estão em um pico. Porém, há preocupação no setor logístico sobre os impactos caso o conflito se estenda.
Para Leandro Barreto, sócio da Solve Shipping, apesar de os preços estarem abaixo daqueles vistos há um ano, hoje o cenário para a exportação é bastante difícil.
“Todas as rotas estão aumentando por uma combinação de fatores. Um deles é o combustível, o petróleo dobrou de preço. Além disso, 10% da frota mundial de contêineres está afetada pela rota do Oriente Médio. São 10% dos contêineres estufados em portos intermediários. Isso tira capacidade do mercado. Essas rotas alternativas são mais longas, então você também tem custo maior.”
Adicionalmente, portos que estão servindo de alternativas ao Estreito de Ormuz estão vivendo congestionamento, em países como Paquistão, Omã, Singapura e Arábia Saudita, disse ele.
Uma opção de trajeto que tem sido usada é levar a carga até o porto de Jeddah, na Arábia Saudita, e cruzar o país pela via terrestre até a costa do Golfo Pérsico - que além de mais custosa, é mais demorada.
Na prática, especialmente para quem exporta ao Oriente Médio, o custo está muito pior do que há um ano, resume Gabriel Carvalho, presidente da Scan Global Logistics na América Latina. Ele destaca que, além do frete regular, as empresas de navegação estão cobrando “taxas de risco de guerra” adicionais. Esses valores podem chegar a até US$ 3 mil por contêiner de 40 pés, ou US$ 4 mil no caso de contêineres refrigerados.
Carvalho avalia que o único fator que tem amenizado a crise é o fato de que o patamar dos fretes estava relativamente baixo no início do ano, então mesmo com a alta ainda não se chegou a um pico. Porém, a situação preocupa, disse.
“Quem sofre mais são os exportadores de carnes e commodities. São produtos perecíveis, refrigerados, não podem ficar estocados tanto tempo. Os grandes exportadores têm mais capacidade de envio, porque a carga tem valor agregado alto, mas os que vendem commodity com valor menor, como madeira, têm sofrido”, disse.
Para Barreto, o fato de os fretes hoje estarem aquém dos de 2025 é reflexo dos altos e baixos vividos pelo comércio marítimo global desde a pandemia. Em abril do ano passado, o setor logístico viva um momento dramático, ele destaca.
Além das tarifas americanas anunciadas naquele mês, à época, o mercado de navegação ainda lidava de forma mais grave com os efeitos do fechamento do Mar Vermelho - iniciados no fim de 2023, pelos ataques de grupos rebeldes do Iêmen, os houthis. Porém, ao longo do último ano, as empresas de navegação ampliaram suas frotas de navios, o que elevou a capacidade, compensou o impacto e aliviou os fretes.
Para além dos preços em alta, Carvalho destaca a preocupação de que o combustível dos navios comece a faltar. Há também preocupação quanto à escassez de contêineres, um cenário que os especialistas veem como provável caso o Estreito de Ormuz continue fechado por muito tempo.
Nas importações, o impacto tem sido menor no Brasil. Na rota da Ásia, a principal para o país, a alta mensal em abril foi de 4,65%, e os importadores não têm tido grandes problemas, porém, há também risco de efeitos, segundo Barreto. “Muitos veem uma desaceleração da economia interna, o que explicaria o frete de importação mais controlado. Outra explicação é que empresas seguraram os pedidos porque tinha ameaça de greve de caminhoneiros, guerra, então decidiram queimar estoques. Porém, os estoques estão sendo queimados e a guerra não acabou. Por isso, estamos esperando uma reação de fretes para a segunda quinzena de abril”, disse.
Fonte: Portal Valor Econômico