:: S.Magalhães e Essemaga ::

De: O Estadão - 10/06/2019


Avanço de economias da Ásia promete reaquecer commodities agrícolas e favorecer Brasil.

 

Um processo gradual de migração do parque industrial chinês para os países vizinhos na Ásia tem potencial de mudar a curva de demanda por commodities agrícolas e minerais na próxima década. Com países como Índia, Mianmar, Malásia, Paquistão, Vietnã e Indonésia crescendo, em média, acima de 5% nos próximos anos, segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), a expectativa é que o incremento na renda reaqueça a procura por alimentos e abra novas perspectivas para as exportações brasileiras. 

A  Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima um potencial de mais de 70 produtos que hoje não são comprados por esses países e poderiam ser comercializados pelo Brasil. Mirando o crescimento desses mercados, o governo tenta agora retirar os entraves logísticos nas exportações para essa área.

 

Ao Estadão/Broadcast, o secretário de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Marcos Troyjo, calcula que em pouco mais de 10 anos esse ciclo resultará em um ganho significativo de renda nesses países. 'O investimento em tecnologia tem um potencial multiplicador. E, como esse potencial se dá em economias de Produto Interno Bruto (PIB) per capita inicialmente baixo, quando esse choque de renda é percebido, é natural que gere uma grande demanda por alimentação', diz.

 

A expectativa é que os países no entorno chinês avancem bem acima da média global de crescimento nos próximos anos. O processo é resultado de uma especialização da mão de obra chinesa, o que empurra para fora da potência asiática atividades de menor valor agregado. 

 

Estimativas do FMI divulgadas este mês indicam uma expansão global de 3,3% este ano, enquanto o grupo denominado como ASEAN-5, composto por Indonésia, Malásia, Filipinas, Tailândia e Vietnã, cresceria 5,1%. Em 2020, o FMI projeta que a economia mundial avançará 3,6%, ao mesmo tempo em que o PIB do ASEAN-5 apresentará expansão de 5,2%.

A superintendente de relações internacionais da CNA, Lígia Dutra, aponta que todos os grandes exportadores de commodities agrícolas do mundo já estão de olho nesse crescimento e têm buscado acordos com o sudeste asiático: 'O Brasil está fora disso, temos pedido ao governo para que negociações sejam feitas, em grupo ou individuais. A Ásia é prioridade'.

Troyjo afirma que o governo está atento ao crescimento do grupo asiático e comenta que, se quiser otimizar o processo, o País tem que trabalhar para melhorar a logística e os gargalos de infraestrutura. 'Mesmo para seguir fazendo mais do mesmo você precisa melhorar logística de escoamento, ter resposta mais rápida a pedidos, brigar com a Índia para abertura do mercado agrícola', pontua. 

O secretário afirma ainda que o Brasil pode ir além, criando joint ventures, por exemplo, com os Estados Unidos ou, ainda, melhorar a logística por meio de investimentos em parceria com países vizinhos, como a construção da ferrovia bioceânica, que ligaria o Brasil ao Pacífico.

Crescimento herdado 

O crescimento expressivo de alguns países asiáticos se dá sobretudo por conta da iniciativa One Belt, One Road (um cinturão, uma rota), do governo chinês. A ideia por trás do plano, inaugurado em 2012, é investir em obras de infraestrutura, como ferrovias, portos e oleodutos, nos mais de 100 países parceiros.

 

Além disso, os embates comerciais travados entre Estados Unidos e China têm ajudado algumas economias do 'cinturão chinês'. De acordo com economistas do JPMorgan, a produção de produtos eletrônicos de baixo custo tem sido feita nesses países após a troca de tarifas entre as duas maiores economias do globo. 

'Testemunhamos uma substituição de importações feitas pelos EUA. Os embarques de produtos do Vietnã para os EUA registram forte crescimento, particularmente em segmentos que se enquadram na lista de tarifas impostas por Washington a produtos chineses', apontam.

O banco central da Malásia também vê a guerra comercial sino-americana como um fator que ajuda nas exportações de curto prazo do país para os EUA devido à menor concorrência com produtos chineses que sofrem com tarifas americanas. 

O cenário econômico para a ASEAN-5 também se faz positivo, na visão de Troyjo, à medida que parte das reservas cambiais da China está alocada em investimentos de baixa remuneração, como os títulos públicos dos EUA, o que pode favorecer mais recursos chineses na iniciativa One Belt, One Road.

À exceção da China, hoje os países asiáticos ainda têm baixa representatividade na balança agrícola brasileira. Apenas Índia, Mianmar, Malásia, Paquistão, Vietnã e Indonésia compraram menos de US$ 6 bilhões em produtos agrícolas do País ante US$ 101,7 bilhões em bens agrícolas brasileiros exportados globalmente, de acordo com dados do Ministério da Agricultura, que contabiliza apenas o agronegócio.

Dos destinos listados, os mais significativos são Vietnã e Índia, sendo que a  maior parte das vendas são de soja, açúcar e milho. A CNA estima que apenas para Malásia e Vietnã há um potencial de 70 novos produtos que poderiam ser exportados, entre eles lácteos e carne de frango e bovina, mas há questões tarifárias e sanitárias a serem destravadas.